sábado, 10 de maio de 2008

6 dias de muito... THE BALCAN TOUR, Maio 2008, Parte 1

Pois é meus caros, mais uns km de Caminho na última semana. Spring Break em Liubliana, ou seja, tempo para viajar! Destino Bósnia Herzegovina e Croácia. The Balcan Tour com 50 alunos Erasmus. 6 noites. Ursha, Marin, Dany e Erwin eram a companhia do SOU e os pontos de paragem foram: Sarajevo, Mostar, Dubrovnik, Ilha de Lokrum, Split e o Parque Nacional dos lagos de Plitvice na Croácia.












Saímos de Liubliana preparados para uma noite de autocarro até Sarajevo, 8 horinhas faz-se bem... Passamos a fronteira para a Bósnia Herzegovina já quase de manhã. Não consigo dormir. A paisagem altera cruelmente. Estradas de aldeia, esburacadíssimas, casas destruídas, massacradas com marcas de balas, miúdos a ir a pé para a escola no trilho ao lado da estrada, terrenos abandonados, lixo... Em cada 30 casas, 15 estão semi-reconstruídas só com tijolo nas paredes e tábuas de madeira nas janelas, 10 apenas em esqueleto e 5 novas... Em cada canto vêm-se cemitérios improvisados. Meia dúzia de altas pedra brancas entaladas nos montes, marcas de uma guerra que acabou há pouco mais de 10 anos.

Chegamos a Sarajevo 5 horas mais tarde do que era suposto. Claro, não só devido aos caminhos e às setas quase em russo, mas porque o motorista nos perdeu, que bom! Acabaram por ser 15 horas de viagem com paragens insuficientes em estações de gasolina perdidas algures... Chegamos, pousamos as tralhas no hotel e apanhamos o velho eléctrico (o primeiro da Europa) para o centro.

Sarajevo dói. É rude. Feia. Desmontada. Desordenada, com edifícios completamente destruídos ao lado de grandes hotéis com restaurantes giratórios e multinacionais. Como eles dizem, “a cidade olímpica em 1984 que esteve sob cerco entre 1992 e 1995”. O cerco a uma cidade capital mais longo da história militar moderna. Mais de 10 000 mortos. Vê-se o esforço demorado para a reconstrução. Os carros são velhos, fazem imenso barulho e transgressões dignas de qualquer xunning odivelense. Sarajevo fica num vale, com um rio. As colinas à volta parecem favelas. São favelas aliás... Passeamos pelo centro ao fim da tarde. Nunca vi tanta mistura de tantas coisas num só sítio, todo o tipo de pessoas, de todas as cores e crenças. Ao lado da igreja está uma mesquita e depois outra mesquita atrás de uma sinagoga e de um cemitério cristão... Depois um outro cemitério, desta vez muçulmano, mais a frente... Na rua ciganos, crianças, mulheres seguem-te para te pedir dinheiro. Andam descalços. Sujos. Pobreza desconhecida da nossa realidade de país desenvolvido... Ficamos na cidade até anoitecer. Ouvimos os cânticos da oração islâmica do pôr-do-sol quando um rapaz da minha idade chega atrasado à mesquita, descalça-se, lava os pés, coloca o “chapéu” (peço desculpa por não usar o termo correcto) e entra. Deixamo-nos ficar mais uma horinha num café, pois mais 30 minutos naquele eléctrico nos esperam, “volta 50, estás perdoado!”

Uma cidade assim não me assusta, dói-me. Faz-me dar valor ao cantinho sossegado da Europa, onde nem a geração dos meus avós viveu com guerra no seu território. Vontade de ficar, de ver, de conversar com as pessoas, ter tempo. Impossível agora, também ninguém fala inglês... Voltar a Sarajevo - projecto a médio prazo. Com tempo, muito tempo.













































































































Manhã seguinte, depois de um merecido descanso, seguimos para comemorar o 1ºMaio na montanha! Tanto nós como tantas famílias que rumam serra acima. Piquenique ao sol! Passamos o dia a comer, beber cerveja Sararjevsko, com jogos tradicionais (organizados pelos novos amiguinhos do país basco) e muita converseta. Não se esqueçam desta palavra: cevapcici, lê-se tchevaptchitchi... Carne em forma de pequena salsicha que se come num pão tipo pita shoarma delicioso com molho e (eles comem) com muita cebola. Ou então carneiro assado na brasa, que estava a ser feito quando chegámos. Mais tradicional, impossível. Descemos da serra, já os nossos camaradas do SOU cantavam música cigana da sérvia alegremente. Influência de Kusturica, tornou-se a banda sonora da viagem, nome: Fanfare Ciocarlia. Num tour de autocarro por Sarajevo percebemos que o Dany e o Erwin são bósnios, e o Marin é croata. Com o álcool as emoções sobem mais depressa e cada edifício relatado por eles ganha outra realidade: “Aqui um monumento ao General Tito, eeeehhhh!!! Ali um hotel construído depois da guerra, com o restaurante giratório, não vão lá que pagam muito e não comem nada, War Profiters, capitalistas, uuuuhhh!!!” Sarajevo relatado na 1ª pessoa, real, depropositado e assim, delicioso.

À noite o cansaço chama por alguns, mas a maioria segue para encontrar sítio onde curtir. Paramos primeiro no Tito´s bar, no qual o segurança não nos queria deixar entrar. Éramos muitos, se calhar metíamos medo e podíamos provocar distúrbios, a única explicação possível, já que questionado o senhor não falava. Lá entrámos. Bar repleto de imagens do General Tito e referências à ex-república da Jugoslávia, onde imagens do Che e de Fidel Castro decoram as paredes vermelhas. À porta duas réplicas em tamanho real de tanques de guerra fazem as delícias para a fotografia de alguns. Seguimos para o centro e descobrimos um bar universitário. Genial, música ocidental, claro, mas do nada começa um concerto amplamente aplaudido. Vim a perceber mais tarde porquê. Eram maioritariamente covers de músicas antigas da Jugoslávia já que todos os do SOU cantavam alegremente e os Erasmus limitavam-se a dançar. Risada, copos, amigos, segurança e tolerância são as palavras para descrever tal local. Um noite muito boa.







































Dia seguinte, antes da partida para a Croácia, ainda em Sarajevo, vamos visitar O Tunel. Uma casa particular que agora está gradualmente a ser transformada em museu, onde foi construído um túnel que ligava a cidade ao exterior durante o cerco. 6 meses de contrução para passar para uma área segura, já que a outra saída da cidade era o aeroporto e estava controlado pelas Nações Unidas, que não eram assim tão imparciais... Alí passava tudo: ajuda humanitária, medicamentos, comida, água, comunicações, homens, mulheres, crianças... “O Tunel salvou a cidade.” A ligação tinha 800 metros (hoje já parte desabou) e, à saida, era preciso correr por um enorme campo aberto até conseguir abrigo. Aí muitos foram mortos. Na sala da exposição vemos objectos, armaduras e fotografias dos aconteciementos. Um filme com um apanhado de imagens captadas na altura, um relato na 1ª pessoa do filho do dono da casa, e alguns crueís esclarecimentos depois (como pessoas que ainda têm vestígios de minas e granadas dentro do corpo porque é mais perigoso tirá-las...), seguimos o nosso caminho...










































É tempo de deixar Sarajevo e seguir em direcção à Croácia. Perto da hora de almoço, e antes da fronteria, paramos na vila de Mostar onde tudo agora é diferente!! Vila de influência românica e sérvia, quase arábica. A ponte, o rio, o chão de pedra mármore branca. As lojas de souvenirs multiplicam-se com encharpes, pulseiras, chinelos e todo o tipo de artigos mais orientais. Os preços aumentaram, o número de turistas também. Já estamos muito perto da Croácia. Mostar é lindíssimo, a grande ponte foi reconstruída depois da guerra e os arredores são acolhedores onde se encontram restaurantes e esplandas agradáveis... Esplanadas!! Sim, sim, em Mostar já faziam uns, agora, agressivos 27º!! Chinelos, que alegria!!

Três horas e um almoço depois temos de seguir caminho, Dubrovnik nos espera! E Mostar aguarda outra visita com certeza...










































1 comentário:

Alzira disse...

Impressionante o relato, o que será ver ao vivo!!!!!
O teu relato faz os nossos problemas parecerem pequeninos!!!
Espero um recuerdo de ar oriental, ehehehe!
Gosto de ler os teus posts, estás a ver o mundo de outra maneira...
Bjs
Zira